Passeava eu num campo verde e vasto,
ouvia o canto dos pássaros e sentia o calor do sol. Cada raio penetrando meus
poros, aquecendo cada parte do meu corpo, um calor me invadiu e até que soando
eu estava, senti necessidade do vento, e então o senti, suas pequenas rajadas
soprando meus cabelos, era como se eu absorvesse a ventania. Mas meu sonho se
tornou um pesadelo, a magnífica imagem do sol foi trocada pela sedutora lua, os
ventos se tornaram gélidos e penetravam como facas em meu corpo. Senti o céu
cair sobre minha cabeça e então acordei. Dei um pulo na cama, minhas mãos entre
as pernas e meus cabelos se projetaram para frente. Eu estava animal, meus
caninos estavam grandes. Muitos dizem que vampiros não se projetam no espelho,
mas é só um conto bobo, na verdade o espelho se faz jus a sua função. Pude
reparar os detalhes ao olhar em um que fica a minha frente.
Frequentemente esses sonhos me rondam,
talvez a lembrança de ser um humano me persegue. Levantei para beber água,
minha mente se mantinha neutra de tudo. Ao olhar o relógio pude perceber que
ainda era dia, e para minha indignação, era 17h40minh, a hora em que fui
transformado. E o que mais me perturbava era o fato de que tais lembranças
ainda rondavam a minha mente, a ira pelo ser que me transformou; a revolta por
eu ter que ter buscado sozinho o conhecimento e a dor por eu ter que ter
abandonado meu único amor. Por alguns instantes eu senti meu sangue ferver, eu
gritava, um grito de dor sentimental, meus músculos me impulsionavam a sair
correndo, meu grito se tornou um urro desesperador, meus caninos vieram à tona,
meus olhos esverdearam, a besta que se habita em mim tomou a frente e então
pulei contra a janela, seus cacos não podiam me penetrar, cai como cai um gato
sobre asfalto da grande cidade que era Sant Andrew, uma cidade um menos
desenvolvida que Porto Alegre, a cidade onde agente vive. Corri desesperado
pelas ruas, nada mais fazia sentido para mim. Eu sabia que não poderia sair,
que pelo fato de eu ser um vampiro de apenas cento e dez anos, eu deveria me
esconder de outros seres Noturnos, eu tinha que viver como lenda, mas neste
momento nada me importava. Parei no alto de um prédio, o sol se punha e seus
raios faziam fumaças em minhas células, eu sabia que era demasiadamente forte e
sobreviveria sobre esses pequeninos raios solares do por do sol. Minha pele se
tornava uma crosta e como plástico brotavam e caiam de meu corpo exposto. Então
retirei a camisa, e aquele calor começou a ferver meu sangue, era uma dor
incompreensível, eu queria chorar, mas lagrimas não haviam mais em meus olhos.
O calor se tornou insuportável à medida que os raios solares se iam e atingiam
como contusões meu corpo. Num pulo desesperador eu saltei, corri para o parque
da cidade, os carros loucos buzinavam, freavam rapidamente, xingavam-me de
todos os cantos, mas era como se eu não os enxergassem. No parque procurei
abrigo entre a mata escura e deitei-me em terra como um bebe na placenta de sua
mãe. O sol se foi e a noite me banhou com o seu brilho. Era lua negra, e sua
magia invadia o meu ser, meu corpo se confortou, senti minhas feridas se
cicatrizarem como um prazer em meu corpo, cada cura eu gemia e vibrava, sentia
um choque em cada toque da mãe lua em meu corpo, meus dentes se recolheram, o
calor humano de um sangue quente em mim brotou novamente. Encostei-me na arvore
e fui refletir sobre a loucura que traz esses meus sonhos, minhas lembranças
humanas, extintos que não existe mais em mim a mais de séculos.
- Algum problema my lorde? Disse uma
linda jovem encapuzada, seus traços finos e delicados sobre sua pele branca e o
contraste de seus olhos azuis faziam dela uma bela jovem. Ela trazia contigo
uma cesta tampada por um pano de mesa.
- Sonhei mais uma vez
Amanda.
- Eu não entendo porque esses sonhos te
incomodam? – Disse Amanda enquanto sentava ao seu lado e colocava a cesta do
outro.
- Eder Marques! São somente lembranças,
isso é passado, você tem mais de 100 anos, aceite o que você é, um poderoso
vampiro.
- Nem eu posso entender, eu não tenho
vontade de voltar a ser humano. Disse Eder.
- Mas tem vontade de não ter sido
transformado naquela época – Argumentou Amanda enquanto retirava da cesta uma
poção – Tome aqui Eder, isso te fará sentir melhor e curará as feridas causadas
pelo sol.
Ele então pegou a poção e num só gole
bebeu. – Eu não sei o que faria sem você minha irmã.
- Não precisa agradecer, agora se
levante, vamos para casa.
Eu queria conversar, mas guardei meus
pensamentos e levantei. Caminhamos pelo parque, o cheiro de noite e mato me
excitava, eu me sentia livre, um barulho de pássaros voando entre as folhas
chegou a nos assustar. Encontramos finalmente os ladrilhos de estrada do
parque.
- Acabou sua poção Amanda?
- Acho que sim. Porque? Ainda se sente
mal?
- Não, não, não digo essa poção, digo a
que você toma para sempre ser jovem. Começo a ver uma ruga em seu rosto.
Amanda corou e se mordeu de raiva: -
Rugas quem tem são aquelas suas partes baixas!
Começamos a rir enquanto caminhávamos. Após um tempo
de caminhada localizamos o carro de Cristine, um porsche branco. Entramos no
carro e fomos para casa.
No caminho seguimos em silencio, meus pensamentos
não me deixavam concentrar em outra coisa, era como se eu revivesse meu passado
constantemente em meus adágios. E Amanda estava em outra dimensão escutando sua
musica eletrônica. Ela tem um horror em relação à velhice. Depois que me transformei
em vampiro, ela foi à primeira da família que soube e que também me ajudou no
processo da transformação, ajudando a encobrir as evidencias. Como ela viu todo
o terror que é ser um vampiro, e em que situações eu tinha que submeter-me para
poder sobreviver que ela pegou uma aversão a ideia de se transformar em uma
vampira. Mas sempre foi adepta do conceito de ser imortal, então em vez do
vampirismo ela começou a estudar bruxaria. Foi para Irlanda onde conheceu um
grande Coven de antigas tradições que foram passadas para ela, conheceu o
caminho do sangue e aprendeu a manipula-lo de uma maneira que a fizesse sempre
jovem, ainda que para isso utilize métodos não convencionais. E é assim que nós
dois pudemos atravessar juntos esse primeiro século de vida.
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