domingo, 1 de novembro de 2015

Capitulo 2 – Eder Marques

Passeava eu num campo verde e vasto, ouvia o canto dos pássaros e sentia o calor do sol. Cada raio penetrando meus poros, aquecendo cada parte do meu corpo, um calor me invadiu e até que soando eu estava, senti necessidade do vento, e então o senti, suas pequenas rajadas soprando meus cabelos, era como se eu absorvesse a ventania. Mas meu sonho se tornou um pesadelo, a magnífica imagem do sol foi trocada pela sedutora lua, os ventos se tornaram gélidos e penetravam como facas em meu corpo. Senti o céu cair sobre minha cabeça e então acordei. Dei um pulo na cama, minhas mãos entre as pernas e meus cabelos se projetaram para frente. Eu estava animal, meus caninos estavam grandes. Muitos dizem que vampiros não se projetam no espelho, mas é só um conto bobo, na verdade o espelho se faz jus a sua função. Pude reparar os detalhes ao olhar em um que fica a minha frente.

Frequentemente esses sonhos me rondam, talvez a lembrança de ser um humano me persegue. Levantei para beber água, minha mente se mantinha neutra de tudo. Ao olhar o relógio pude perceber que ainda era dia, e para minha indignação, era 17h40minh, a hora em que fui transformado. E o que mais me perturbava era o fato de que tais lembranças ainda rondavam a minha mente, a ira pelo ser que me transformou; a revolta por eu ter que ter buscado sozinho o conhecimento e a dor por eu ter que ter abandonado meu único amor. Por alguns instantes eu senti meu sangue ferver, eu gritava, um grito de dor sentimental, meus músculos me impulsionavam a sair correndo, meu grito se tornou um urro desesperador, meus caninos vieram à tona, meus olhos esverdearam, a besta que se habita em mim tomou a frente e então pulei contra a janela, seus cacos não podiam me penetrar, cai como cai um gato sobre asfalto da grande cidade que era Sant Andrew, uma cidade um menos desenvolvida que Porto Alegre, a cidade onde agente vive. Corri desesperado pelas ruas, nada mais fazia sentido para mim. Eu sabia que não poderia sair, que pelo fato de eu ser um vampiro de apenas cento e dez anos, eu deveria me esconder de outros seres Noturnos, eu tinha que viver como lenda, mas neste momento nada me importava. Parei no alto de um prédio, o sol se punha e seus raios faziam fumaças em minhas células, eu sabia que era demasiadamente forte e sobreviveria sobre esses pequeninos raios solares do por do sol. Minha pele se tornava uma crosta e como plástico brotavam e caiam de meu corpo exposto. Então retirei a camisa, e aquele calor começou a ferver meu sangue, era uma dor incompreensível, eu queria chorar, mas lagrimas não haviam mais em meus olhos. O calor se tornou insuportável à medida que os raios solares se iam e atingiam como contusões meu corpo. Num pulo desesperador eu saltei, corri para o parque da cidade, os carros loucos buzinavam, freavam rapidamente, xingavam-me de todos os cantos, mas era como se eu não os enxergassem. No parque procurei abrigo entre a mata escura e deitei-me em terra como um bebe na placenta de sua mãe. O sol se foi e a noite me banhou com o seu brilho. Era lua negra, e sua magia invadia o meu ser, meu corpo se confortou, senti minhas feridas se cicatrizarem como um prazer em meu corpo, cada cura eu gemia e vibrava, sentia um choque em cada toque da mãe lua em meu corpo, meus dentes se recolheram, o calor humano de um sangue quente em mim brotou novamente. Encostei-me na arvore e fui refletir sobre a loucura que traz esses meus sonhos, minhas lembranças humanas, extintos que não existe mais em mim a mais de séculos.

- Algum problema my lorde? Disse uma linda jovem encapuzada, seus traços finos e delicados sobre sua pele branca e o contraste de seus olhos azuis faziam dela uma bela jovem. Ela trazia contigo uma cesta tampada por um pano de mesa.

- Sonhei mais uma vez Amanda.         

- Eu não entendo porque esses sonhos te incomodam? – Disse Amanda enquanto sentava ao seu lado e colocava a cesta do outro.

- Eder Marques! São somente lembranças, isso é passado, você tem mais de 100 anos, aceite o que você é, um poderoso vampiro.

- Nem eu posso entender, eu não tenho vontade de voltar a ser humano. Disse Eder.

- Mas tem vontade de não ter sido transformado naquela época – Argumentou Amanda enquanto retirava da cesta uma poção – Tome aqui Eder, isso te fará sentir melhor e curará as feridas causadas pelo sol.

Ele então pegou a poção e num só gole bebeu. – Eu não sei o que faria sem você minha irmã.

- Não precisa agradecer, agora se levante, vamos para casa.

Eu queria conversar, mas guardei meus pensamentos e levantei. Caminhamos pelo parque, o cheiro de noite e mato me excitava, eu me sentia livre, um barulho de pássaros voando entre as folhas chegou a nos assustar. Encontramos finalmente os ladrilhos de estrada do parque.

- Acabou sua poção Amanda?

- Acho que sim. Porque? Ainda se sente mal?

- Não, não, não digo essa poção, digo a que você toma para sempre ser jovem. Começo a ver uma ruga em seu rosto.

Amanda corou e se mordeu de raiva: - Rugas quem tem são aquelas suas partes baixas!

Começamos a rir enquanto caminhávamos. Após um tempo de caminhada localizamos o carro de Cristine, um porsche branco. Entramos no carro e fomos para casa.


No caminho seguimos em silencio, meus pensamentos não me deixavam concentrar em outra coisa, era como se eu revivesse meu passado constantemente em meus adágios. E Amanda estava em outra dimensão escutando sua musica eletrônica. Ela tem um horror em relação à velhice. Depois que me transformei em vampiro, ela foi à primeira da família que soube e que também me ajudou no processo da transformação, ajudando a encobrir as evidencias. Como ela viu todo o terror que é ser um vampiro, e em que situações eu tinha que submeter-me para poder sobreviver que ela pegou uma aversão a ideia de se transformar em uma vampira. Mas sempre foi adepta do conceito de ser imortal, então em vez do vampirismo ela começou a estudar bruxaria. Foi para Irlanda onde conheceu um grande Coven de antigas tradições que foram passadas para ela, conheceu o caminho do sangue e aprendeu a manipula-lo de uma maneira que a fizesse sempre jovem, ainda que para isso utilize métodos não convencionais. E é assim que nós dois pudemos atravessar juntos esse primeiro século de vida. 

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