Terra
- Sant Andrew/ RS - 2015
Nesta
madrugada comecei a leitura do livro das sombras de minha irmã, as letras
estavam um pouco embaçadas como num mecanismo de defesa do próprio livro que
não estava tão seguro de que era ela a leitora. Sentei-me à mesa da biblioteca
a meia luz e me concentrei tentando encontrar uma saída, então eu foliei as
primeiras páginas e fui para o final, ali ela demonstraria as sensações que
estava sentindo antes de ter desaparecido.
“Há
alguns dias me deparei com uma criatura alada, de plumagem negra brilhante,
parecia uma ave longa e altiva, com bicos finos e proeminentes e as penas do
rabo eram compridas e de um color uniforme. Se parecia muito as fênix dos
contos.”
Eu
já havia vivido um tempo considerável, e algumas criaturas fantásticas de fato
existiam, mas a fênix era realmente uma revelação, ou minha doce irmã havia
sucumbido à loucura, ou estava em meio a uma descoberta. Mas isso ainda não
explica o sumiço. Então voltei à leitura.
“Quando
comecei a fazer interrogações a mim mesmas sobre a criatura que me visitava,
percebi que ela podia ouvir meus pensamentos, porque ela era capaz de se
expressar com a cabeça ou com gestos delicados de suas asas. Aos poucos ela me
foi suspendendo no ar com algum tipo de força psíquica, quando percebi que ela
me levava para fora do quarto, recitei um encantamento para que tornássemos invisíveis
‘Circulo de luz, circulo de poder, por um tempo deposito minha cor, por favor, devolva-a
ao meu dizer, torna-me invisível, faça-me movimentar sem ninguém perceber’. E rondamos
o céu de Sant Andrew de uma maneira única, incrível, indescritível, a leveza
que ela proporcionava. Quando estava terminando a noite ela me levou de volta
ao quarto e num tipo de mini explosão ela desapareceu. Eu soube ali que ela não
pertencia a nosso mundo. Eu sempre soube que havia dimensões e camadas leves e
densas no nosso universo, mas não havia imaginado mundos viventes como o nosso,
e estava realmente encantada, e então se despertou em mim uma nova curiosidade.”
O
que ela quer dizer com essas palavras, logo após essa declaração, só existe um
feitiço escrito por ela, mas sem nome, e o que quer dizer? Será que invoca o
tal pássaro? Ou será que me leva para aonde ela esta? A única maneira de
descobrir é voltando a ter com Margarida, ela será capaz de conjura-lo.
Recopiei
numa folha o feitiço e fui atrás d bruxa. Estava dormindo quando a incomodei. Ela
abriu a porta um pouco contrariada com a hora, mas pôde ser compreensiva,
afinal, eu estou no desespero para saber o paradeiro de Amanda.
Logo
que entrei a sua casa, ela me encaminhou para o jardim, trouxe consigo utensílios
de trabalho e começou a conjurar os círculos e encantamentos de proteção,
invocando os guardiões das torres. Em seguida neutralizou-me para que eu fosse
capaz de adentrar ao interior do circulo, afinal, sou um vampiro, e para eles
sou tido como uma criatura das trevas.
-
Dê-me o feitiço Eder! – Exclamou a bruxa, vamos descobrir do que se trata.
Ela
o agarrou e começou a recitar as palavras encantadas, o circulo se encheu de
luz, e por alguns segundos aquilo começou a me incomodar, sentia minhas células
regenerando de maneira rápida para evitar uma possível destruição. Mas confiei
em Margarida.
De
repente pesadas correntes negras começaram a enredarem em meus braços e pernas,
uma ventania tomou conta do lugar, e outro circulo muito maior com um monte de
runas no interior de seu anel surgiu, e uma palavra peculiar se mantinha fixa
em minha mente “Kharin”.
Então
pude perceber outra realidade, um lugar como a Terra, talvez diferente em
relação a algumas plantas e flores que posso ver. Mas possui céu e terra. Não conseguia
ver o tal pássaro negro e tampouco a minha irmã.
-
É um portal Éder! – Gritou Margarida do lado de fora do circulo. – não posso te
dizer que ai encontrará Amanda. E simplesmente o que sugere o último feitiço
por ela escrito. Não serei capaz de sustenta-lo por muito tempo, então terá que
tomar uma decisão. Quer retornar? Ou seguirá a caminhada?
Eu
não tinha muito que pensar era a única pista sobre o paradeiro de minha irmã,
se ela avançou novos mundos por exploração ou porque fora sequestrada, eu
precisava descobrir. Então disse a Margarida que ficaria então avancei alguns
passos e me vi completamente em outro lugar, e aquele nome que eu os havia dito
no principio continuou fixo em meus pensamentos, Kharin.
Eu
estava em um campo aberto, com gramas baixas e espécies de arvores com diversas
cores, algo que eu jamais havia visto na Terra. Era igual que aqui, um único céu,
uma única lua, e com seus milhares de estrelas. Não via nenhum ser vivo e então
segui caminhando, pude ver alguns animais silvestres, bem parecidos com os que
temos em nosso planeta. Mas adiante comecei a ver construções, e parecia que
agora eu estava dentro de um filme, são construções das do tipo medieval na
Terra, castelos e casas da plebe feito de barro, ou às vezes de troncos de
arvores e palha, antes de alcançar a dita civilização, também encontrei uma
base de sustentação agrícola, com plantações de trigo, cevada, arroz entre
outras leguminosas. Deduzi que ao menos em essa realidade alternativa já não
eram mais nômades, já disfrutavam de uma vida sedentária. Ao ver o castelo no
monte, concluí que o sistema político é sobre reis e rainhas. E uma coisa não
saia da minha cabeça, que faria Amanda neste lugar, ou estaria em busca de algo
muito precioso, ou não conseguiu mais voltar, uma vez aqui dentro. Alias, essa
era outra indagação, como eu voltaria?
Outro
ponto que preocupava, é que logo amanheceria, e isso poderia significar meu
fim. Tratei de alcançar logo a sociedade. As pessoas me olhavam estranhas e
curiosas, eram típicas de cidades provincianas, que quando um ser estranho
chega, já é motivo de conversas, indagações e conceitos prévios. Procurei uma
estalagem e um senhor de idade avançada estava sentado.
-
Procuro um lugar para repousar. Vim de muito longe, e este fora o lugar mais
próximo que encontrei. – Outra coisa me incomodava, eu comecei a sentir muita
sede, não por água, por sangue.
-
Claro senhor, temos um quarto. Como você se chama? – Perguntou cordialmente o
senhor.
-
Sou Éder Marques.
Ele
ajeitou os óculos e anotou meu nome curioso. Logo algo que o incomodava foi
exteriorizado.
-
Primeiro terá que pagar!
E
eu não tinha ideia de como se faz isso neste lugar.
-
Perdão senhor, mas qual é a moeda de troca? – Tudo o que eu tinha no bolso eram
reais.
Antes
que o senhor tivesse a chance de me responder, um senhor de mais ou menos um
metro e oitenta desceu as escadas da estalagem. Senti o medo que sentia o dono
do estabelecimento e comecei a preocupar-me.
-
Venha comigo meu rapaz. – Disse essas palavras com os olhos fixos em mim, e
parecia atravessar-me.
Não
tive outra reação a não ser acompanha-lo.
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