Fechado
em meu próprio mausoléu que é como costumo chamar meu quarto estive pensando
coisas estranhas desde o dia em que tive aqueles sonhos estranhos sobre sentir
o sol. No começo eu não havia levado a sério, mas talvez seja um aviso, uma
premonição de que algo está chegando, e a presença do sol pode significar que
seja algo capaz de me destruir.
Resolvi
que já era hora de sair, a fome começava a se manifestar, e está ai um ato que
não consigo me acostumar, já o faço a um bom tempo, pelo menos uma vez a cada
duas semanas, mas ferir pessoas é totalmente contra muita coisa em que
acredito. Mas fui amaldiçoado nessa condição, e não tenho muitas opções.
Amanda
estava na cozinha preparando alguma coisa, graças a ela podemos disfarçar
nossas vidas, sendo ela humana, precisa realizar coisas de seres humanos, como
comer, ter desejos, sair durante o dia, conversar, relacionar-se, e isso torna
nosso lar mais convincente. Não somos de ter muitos amigos, damos muito certo
juntos e suprimos essa necessidade, mas vez ou outra realizamos jantares e
festas sociais para amenizar as duvidas que surgem na mente das pessoas que nos
circundam.
Arrastei
a cadeira a pus de frente a porta de vidro e passei a observar a cidade, o
entardecer, à movimentação dos carros e os pedestres nas ruas abaixo. Essa é
particularmente a melhor hora do dia, os raios do sol estão enfraquecidos e eu
os posso suportar um pouco mais. Então aproveito para sentir-me mais humano. Quando
fui transformado em vampiro, em mil novecentos e cinco, foi um processo
traumatizante para mim. Na época eu estava apaixonado e também sabia que a
pessoa me queria, mas como clichês, era um amor proibido, primeiro porque nossa
vida social era distinta, a pessoa possuía muito mais poderes aquisitivos que
eu, outra que sua família nunca aceitaria, e o mais emblemático é que éramos
homens. O Brasil estava em um processo conturbador e os gays não eram bem
vistos em nossa sociedade, uns fingiam que não existiam, outros matavam nas províncias,
fora a escória com que eram tratados os que tinham a coragem de ser assumido. O
que terminavam com suas vidas num bordel qualquer a custa de trabalho corporal,
como prostitutas.
Muitas
vezes nos encontrávamos de dia, para que parecemos como amigos. Consigo lembrar
exatamente dos planos que fazíamos, de fugir, de viver no meio do mato e levar
uma vida juntos até o final. Eu costumava dizer que ele não aguentaria perder a
vida de luxo, e seu sorriso era tão encantador, e como me dizia que comigo
suportaria tudo.
Mas
algo aconteceu horas mais tarde, o dia estava um pouco nublado e já estávamos próximo
às seis horas da tarde quando um ser com os olhos tingidos em sangue arrombou a
porta com a força de dez homens e se ocultou na sala, parecia que não queria
encontrar a luz e também era algo mais que isso, ele estava sendo perseguido.
Sant Andrew era uma província pequena na época, e como tal existiam muitas
pessoas de mente retrógada, vivendo um século passado. Eu e Lucas, o rapaz por
quem me apaixonei oferecemos ajuda, mas o homem não parecia raciocinar, seus
olhos miravam diversas direções e a asas de suas narinas estavam em um continuo
farejar. Lucas então se aproximou e foi quando o ato mais impressionante que eu
havia presenciado aconteceu. Quando o homem abriu a boca, deixou a mostra seus
caninos alargados e em questão de segundos mordeu o pescoço de Lucas que passou
a esguichar sangue. Com o pescoço dobrado ele tentou gritar por ajuda, ainda
que não lhe saia à voz. Então corri para socorrê-lo, saltei em cima do ser
misterioso e lhe dei uma mordida no ombro para que o soltasse e senti um gosto
amargo de seu sangue sem movimento. Com um movimento brusco com o braço ele jogou
Lucas para longe e veio em minha direção. Ele abriu um sorriso, como se o
sangue de meu amado o tivesse feito revigorar, e num movimento brusco ele
torceu meu pescoço e então morri.
Acordei
algumas horas depois com Lucas despertando-me. Já estávamos na cama e pensei
que tudo não tivesse passado de um sonho. Mas logo vi o curativo em seu pescoço
e me deparei com a realidade. Era madrugada e a sede por sangue que eu sentia
vinha de mais além do meu próprio ser, incontrolável, incondicional. Lucas me
falava algo, mas eu só podia escutar o choque de seu sangue sobre suas artérias
e veias. Então num ato animal, irracional eu o mordi, e não podia sentir
remorsos, eu sentia prazer em cada gota que jorrava em minha garganta e de fato
me senti mais forte, mais revigorado. Amanda vivia na Irlanda e estudava
bruxaria nessa época, e com o dinheiro que ganhava lá ela me mantinha no Brasil.
Quando
minha consciência se despertou e me deparei com o cadáver do meu próprio amor
estirado na cama que agora estava toda ensanguentada. E chorei como nunca mais
voltei a chorar, eu sabia que não encontraria outra pessoa como ele, que
pudesse significar tanto, ou que pudéssemos fazer planos. Agora eu havia me
tornado um ser de treva e viveria do sangue de inocentes. E o pior é que eu não
imaginava como funcionava tudo isso. Aos poucos me dei conta de que não precisava
me alimentar e tampouco dormir. Quando Amanda voltou da Europa eu a contei e
desde então ela tem me ensinado tudo o que eu precisei saber, também conheci
alguns vampiros atravessando este século e com eles soube da história e de como
tudo aconteceu, da ordem que existe, entre outros ensinamentos. Mas nunca mais
voltei a encontrar o vampiro que aquela tarde me transformou.
Depois
de tantas nostalgias a noite finalmente apareceu, então eu pude aproximar-me
mais da varanda, abri as janelas e senti novamente o misticismo da noite. Levantei
para procurar por Amanda, já que a muito eu não a escutava. Fui à cozinha que é
o lugar que ela costuma passar mais tempo preparando poções. Mas não a vi. Em seu
quarto ela tampouco estava. Fiz algumas ligações e todos diziam que não a viram
no dia de hoje. Fiquei preocupado e comecei a farejá-la e não sentia seu
cheiro, nem mesmo um rastro, Amanda simplesmente havia desaparecido enquanto eu
explanava meu passado, comprovando que ele mais uma vez atrapalhava minha vida.
Desci o elevador e a procurei pelo condomínio e logo depois pelo bairro, não
existia um menor sinal, uma dica, algo perdido, nada, Amanda não estava mais
entre nós.
Contatei
uma amiga bruxa e fui à sua casa. Toquei a campainha e não tardou para que
Margarida abrisse a porta.
-
Eder. Tem certeza que não pode localizar Amanda. Ela é muito antiga e poderosa,
é quase impossível que algum ser ao nosso redor tenha a capacidade de
sequestra-la sem que ela possa deixar-nos ao menos uma pista de como encontra-la.
-
Já procurei por todos os lados. Você vai precisar realizar um feitiço de
localização. Como você mesmo disse, minha irmã é muito poderosa, se algo está acontecendo,
ela realmente está em perigo.
Margarida
abriu um circulo mágico recitando as palavras e realizando movimentos
coordenados. Logo desenhou pentagramas e outros símbolos. Num cálice ela pediu
meu sangue, já que eu e Amanda somos irmãos, um feitiço do mesmo sangue é muito
mais efetivo. Então agarrei a faca e cortei a palma da minha mão e apertei para
escorrer o sangue fresco. Ela colocou o cálice no meio do circulo em cima de um
papiro limpo. Logo falou algumas palavras em latim e os símbolos e escritas que
surgiram eu não pude traduzir, estavam em outras línguas e imagens. Mas
Margarida sim o conhecia. E me disse que Amanda esta além deste mundo, está
prisioneira em mundos mim não conhecidos, e que a este nível eu não poderia
fazer nada. Corri o mais rápido que pude para casa a buscar seus livros. Eu não
poderia acreditar que havia perdido minha irmã e que seria eu capaz de fazer
nada. Os livros de minha irmã só podem ser lidos por ela, mas Margarida me
ensinou através da magia de sangue poder confundir o feitiço e eu por irmão ser
capaz de ler. Foi então que minha fixação por transcender a Terra começou, eu
precisava saber o que aconteceu com minha irmã e porque a levaram de mim.
Nenhum comentário:
Postar um comentário