domingo, 8 de novembro de 2015

Capitulo 6 – O Agir do Mal

Fechado em meu próprio mausoléu que é como costumo chamar meu quarto estive pensando coisas estranhas desde o dia em que tive aqueles sonhos estranhos sobre sentir o sol. No começo eu não havia levado a sério, mas talvez seja um aviso, uma premonição de que algo está chegando, e a presença do sol pode significar que seja algo capaz de me destruir.

Resolvi que já era hora de sair, a fome começava a se manifestar, e está ai um ato que não consigo me acostumar, já o faço a um bom tempo, pelo menos uma vez a cada duas semanas, mas ferir pessoas é totalmente contra muita coisa em que acredito. Mas fui amaldiçoado nessa condição, e não tenho muitas opções.

Amanda estava na cozinha preparando alguma coisa, graças a ela podemos disfarçar nossas vidas, sendo ela humana, precisa realizar coisas de seres humanos, como comer, ter desejos, sair durante o dia, conversar, relacionar-se, e isso torna nosso lar mais convincente. Não somos de ter muitos amigos, damos muito certo juntos e suprimos essa necessidade, mas vez ou outra realizamos jantares e festas sociais para amenizar as duvidas que surgem na mente das pessoas que nos circundam.

Arrastei a cadeira a pus de frente a porta de vidro e passei a observar a cidade, o entardecer, à movimentação dos carros e os pedestres nas ruas abaixo. Essa é particularmente a melhor hora do dia, os raios do sol estão enfraquecidos e eu os posso suportar um pouco mais. Então aproveito para sentir-me mais humano. Quando fui transformado em vampiro, em mil novecentos e cinco, foi um processo traumatizante para mim. Na época eu estava apaixonado e também sabia que a pessoa me queria, mas como clichês, era um amor proibido, primeiro porque nossa vida social era distinta, a pessoa possuía muito mais poderes aquisitivos que eu, outra que sua família nunca aceitaria, e o mais emblemático é que éramos homens. O Brasil estava em um processo conturbador e os gays não eram bem vistos em nossa sociedade, uns fingiam que não existiam, outros matavam nas províncias, fora a escória com que eram tratados os que tinham a coragem de ser assumido. O que terminavam com suas vidas num bordel qualquer a custa de trabalho corporal, como prostitutas.

Muitas vezes nos encontrávamos de dia, para que parecemos como amigos. Consigo lembrar exatamente dos planos que fazíamos, de fugir, de viver no meio do mato e levar uma vida juntos até o final. Eu costumava dizer que ele não aguentaria perder a vida de luxo, e seu sorriso era tão encantador, e como me dizia que comigo suportaria tudo.

Mas algo aconteceu horas mais tarde, o dia estava um pouco nublado e já estávamos próximo às seis horas da tarde quando um ser com os olhos tingidos em sangue arrombou a porta com a força de dez homens e se ocultou na sala, parecia que não queria encontrar a luz e também era algo mais que isso, ele estava sendo perseguido. Sant Andrew era uma província pequena na época, e como tal existiam muitas pessoas de mente retrógada, vivendo um século passado. Eu e Lucas, o rapaz por quem me apaixonei oferecemos ajuda, mas o homem não parecia raciocinar, seus olhos miravam diversas direções e a asas de suas narinas estavam em um continuo farejar. Lucas então se aproximou e foi quando o ato mais impressionante que eu havia presenciado aconteceu. Quando o homem abriu a boca, deixou a mostra seus caninos alargados e em questão de segundos mordeu o pescoço de Lucas que passou a esguichar sangue. Com o pescoço dobrado ele tentou gritar por ajuda, ainda que não lhe saia à voz. Então corri para socorrê-lo, saltei em cima do ser misterioso e lhe dei uma mordida no ombro para que o soltasse e senti um gosto amargo de seu sangue sem movimento. Com um movimento brusco com o braço ele jogou Lucas para longe e veio em minha direção. Ele abriu um sorriso, como se o sangue de meu amado o tivesse feito revigorar, e num movimento brusco ele torceu meu pescoço e então morri.

Acordei algumas horas depois com Lucas despertando-me. Já estávamos na cama e pensei que tudo não tivesse passado de um sonho. Mas logo vi o curativo em seu pescoço e me deparei com a realidade. Era madrugada e a sede por sangue que eu sentia vinha de mais além do meu próprio ser, incontrolável, incondicional. Lucas me falava algo, mas eu só podia escutar o choque de seu sangue sobre suas artérias e veias. Então num ato animal, irracional eu o mordi, e não podia sentir remorsos, eu sentia prazer em cada gota que jorrava em minha garganta e de fato me senti mais forte, mais revigorado. Amanda vivia na Irlanda e estudava bruxaria nessa época, e com o dinheiro que ganhava lá ela me mantinha no Brasil.

Quando minha consciência se despertou e me deparei com o cadáver do meu próprio amor estirado na cama que agora estava toda ensanguentada. E chorei como nunca mais voltei a chorar, eu sabia que não encontraria outra pessoa como ele, que pudesse significar tanto, ou que pudéssemos fazer planos. Agora eu havia me tornado um ser de treva e viveria do sangue de inocentes. E o pior é que eu não imaginava como funcionava tudo isso. Aos poucos me dei conta de que não precisava me alimentar e tampouco dormir. Quando Amanda voltou da Europa eu a contei e desde então ela tem me ensinado tudo o que eu precisei saber, também conheci alguns vampiros atravessando este século e com eles soube da história e de como tudo aconteceu, da ordem que existe, entre outros ensinamentos. Mas nunca mais voltei a encontrar o vampiro que aquela tarde me transformou.

Depois de tantas nostalgias a noite finalmente apareceu, então eu pude aproximar-me mais da varanda, abri as janelas e senti novamente o misticismo da noite. Levantei para procurar por Amanda, já que a muito eu não a escutava. Fui à cozinha que é o lugar que ela costuma passar mais tempo preparando poções. Mas não a vi. Em seu quarto ela tampouco estava. Fiz algumas ligações e todos diziam que não a viram no dia de hoje. Fiquei preocupado e comecei a farejá-la e não sentia seu cheiro, nem mesmo um rastro, Amanda simplesmente havia desaparecido enquanto eu explanava meu passado, comprovando que ele mais uma vez atrapalhava minha vida. Desci o elevador e a procurei pelo condomínio e logo depois pelo bairro, não existia um menor sinal, uma dica, algo perdido, nada, Amanda não estava mais entre nós.

Contatei uma amiga bruxa e fui à sua casa. Toquei a campainha e não tardou para que Margarida abrisse a porta.

- Eder. Tem certeza que não pode localizar Amanda. Ela é muito antiga e poderosa, é quase impossível que algum ser ao nosso redor tenha a capacidade de sequestra-la sem que ela possa deixar-nos ao menos uma pista de como encontra-la.

- Já procurei por todos os lados. Você vai precisar realizar um feitiço de localização. Como você mesmo disse, minha irmã é muito poderosa, se algo está acontecendo, ela realmente está em perigo.


Margarida abriu um circulo mágico recitando as palavras e realizando movimentos coordenados. Logo desenhou pentagramas e outros símbolos. Num cálice ela pediu meu sangue, já que eu e Amanda somos irmãos, um feitiço do mesmo sangue é muito mais efetivo. Então agarrei a faca e cortei a palma da minha mão e apertei para escorrer o sangue fresco. Ela colocou o cálice no meio do circulo em cima de um papiro limpo. Logo falou algumas palavras em latim e os símbolos e escritas que surgiram eu não pude traduzir, estavam em outras línguas e imagens. Mas Margarida sim o conhecia. E me disse que Amanda esta além deste mundo, está prisioneira em mundos mim não conhecidos, e que a este nível eu não poderia fazer nada. Corri o mais rápido que pude para casa a buscar seus livros. Eu não poderia acreditar que havia perdido minha irmã e que seria eu capaz de fazer nada. Os livros de minha irmã só podem ser lidos por ela, mas Margarida me ensinou através da magia de sangue poder confundir o feitiço e eu por irmão ser capaz de ler. Foi então que minha fixação por transcender a Terra começou, eu precisava saber o que aconteceu com minha irmã e porque a levaram de mim.

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